
Pensa em Xerxes: 300 chibatadas no oceano. E sua consciência nau-fraga. Sabe que tudo é traiado e urdido entre o verdadeiro e o falso, sem nunca os alcançar. Por isso, é quase Éden. Adão culpabiliza Eva, e Eva a serpente. Uma só tormenta: o exército de Xerxes derrotado. Há que desalojar do azul uma tristeza. E atribuir o gozo à falta. Essa fenda por onde se estica o desejo, como se as mãos escorregando na tarde retessem nuvens. Para inalcançar, cresce. Alarga o arco-íris, e se faz corpo-flecha. Tem um alvo disfarçado em galáxia. Um Girassol enfeita os anéis de Saturno. E ela escreve nas costa da noite com açucenas. Essa flor-surpresa, no estio, tem vida fecunda só dentro. Fora, há quem pense que a vida lhe escapou. Ressequida. Mas quando cala, a palavra está em primavera. E um beija-flor encontra mel em seus olhos. Por isso, sua escrita gorjeia. Dor e culpa tecem um casulo-abrigo, onde ela se aguarda em invernos. Erra os passos para se estranhar. Quer se desconhecer até o ponto de saber-fazer-se pelos descaminhos. E amor, esse precisa ter os olhos pousados sobre suas demências, para ser, enquanto um coração recita: 'o escuro me ilumina', e Manoel de Barros sorri, brejeiro. Ela, flor-de-lótus. Sete vezes ao dia enlouquece, por perfeição. Escuta o gemido do mar guardado nas reentrâncias das conchas. Tem uma árvore da vida no centro da sala. Usa a costela de Adão para extrair látex. Apaga a própria história para ler as marcas. Hoje, pensa em Xerxes. E no que haveria pensado o soldado ao executar a sentença.300 chibatadas. E se 300 caracteres lhe bastariam. Escreve. Xerxes rouco. As palavras talham o branco do papel. Apaga a luz. No papel sem pautas uma centelha de vida se faz seiva nos veios das letras. Escuta, sua voz tem demografia de Bonsai. O seu ser tem o silêncio por caule. Ela rouca de nada dizer. Datilógrafa seu último grito. Seu ponto final: si, sustenido. As reticências, carrega feito sísifo. E por isso, Xerxes nem é tão louco assim. Entendes?